terça-feira, 12 de agosto de 2008

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino, amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou

Florbela Espanca

domingo, 13 de julho de 2008

Ninguém mais pede em namoro


É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade?

“Qualé a sua, meu rapaz?!”, indaga a nobre gazela.

E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas.

No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos de hoje, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, belo belo que te quero, vida noves fora zero...

Cada vez mais raro o pedido formal de enlace, aquele velho clássico, o cara nervoso, se tremendo como vara verde: “Você me aceita em namoro”?

Talvez nem exista mais.

O amor e as suas mudanças. A maioria dos homens, além de não pedir em namoro, além de não pegar no tranco, ainda corre em desespero diante de uma sugestão ou proposta de casamento feitas pela moça.

O capítulo bom da história é que agora as mulheres também partem para o ataque e, diante de uns temerosos ou acanhados sujeitos, escancaram seus desejos e fazem suas apostas, seus pedidos, põem na mesa os seus desejos e as cartas de intenções.

Era bem bacana esse suspense masculino do “você quer namorar comigo?”

Havia sempre o medo do “fora”. Um sim, mesmo o mais previsível, era uma festa.

“Quer namorar comigo?”

No tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga.

Alguns sinais, porém, continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios.

Mais do que um bouquet de flores, mais do que uma carta ou um email de intenções, mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o batom e a força dos membros inferiores.

“Vamos pegar uma tela, amor?”, como se dizia não muito antigamente.

Eis a senha.

Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro.

O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira.

Nada mais simbólico e romântico.

Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas...

Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra.

Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras.

Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, poeta dos melhores e mais líricos.

Palavras, palavras,palavras...

Silêncio, Silêncio, silêncio...

Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.


Xico Sá (escritor, cronista e comentarista esportivo)



segunda-feira, 7 de julho de 2008

Uma noite de julho

Eram duas horas da madrugada. A noite estava tranqüila. A movimentação de carros praticamente inexistia. Paulo caminhava lentamente. Observava a pracinha que ficava em frente ao seu prédio, lá dois mendigos dormiam incomodados com a iluminação da rua.
Na portaria do condomínio, Miranda, o porteiro, o cumprimentou com um sorriso largo e um boa noite entusiasmado. Para ir até seu apartamento, no sexto andar, Paulo recusou o elevador. Preferiu as escadas, degrau a degrau pensando sobre os últimos acontecimentos. Seu trabalho, sua dissertação de doutorado, seus sonhos, suas perdas. Não tinha filhos. Preferia as noites tranqüilas e os livros. Naquele momento, havia percebido que em seu quarto não existiam porta-retratos, álbuns de família, recados da diarista, ou qualquer coisa que lembrasse o dia anterior, o mês anterior, o ano anterior. O apartamento parecia enorme. Seus olhos corriam pelos cômodos e ele achava cada vez mais inúteis aqueles móveis todos.
Ligou a TV. Mudou várias vezes de canal. Como em todas as madrugadas viu um talk show com perguntas cretinas, filmes picantes, séries americanas. Desligou. Voltou seu olhar para a escrivaninha com seus rabiscos, suas tarefas inacabadas. O mês de julho já está quase no final, pensou. O relógio digital no canto esquerdo da mesinha de cabeceira já mostrava três da madrugada. A tranqüilidade da noite parecia acabar quando um carro dispara um alarme a pouco metros dali. Paulo sentia novamente a necessidade do silêncio.
Sua cama estava arrumada, impecável. Ao deitar, decidiu que o seu amanhã seria diferente.
Amanheceu. Paulo não acordou. O dia continua. Sorrisos do porteiro. Bons dias apressados. Barulho do trânsito. Sol forte. Sirenes de escolas. Beijos de namorados. Elevador subindo e descendo. Televisão com volume alto. Conversas inúteis no bar da esquina. E o condomínio não reparou a ausência de um homem de cinqüenta anos sem amigos, sem família e sem a agenda de compromissos, que ele havia esquecido na portaria, em sua última noite.
Nathália Rebouças

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


Carlos Drummond de Andrade

A nossa história, sempre na visão dos vencedores


Ilustração de Carlos Lattuf.
Retirada do site Fazendomedia. com

Endereço: http:fazendomedia.com/diaadia/protoblog

Título da postagem
"Quem escreve a história?"

Acessem

http://carapuceiro.zip.net

http://blonicas.zip.net

Eu recomendo!

Paciência - Composição: Lenine e Dudu Falcão

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...

A vida não pára!...
A vida é tão rara!...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

A nova televisão


- Muda de canal, faz o favor.
- Mas por que?
- Nada a ver essa luta, coisa mais chata...
- Pô, mas logo agora que o Pirata colocou o Ogro nas cordas? Logo agora que ele ia fazer farofa da cara do cara?
- Não agüento mais esse tipo de programa. Você fica vendo essa porcaria toda hora. Muda daí.
- Mas pra onde?
- Sei lá, me dá esse controle remoto um pouco.
- Espera, vou colocar num canal de filmes legal, o 147...
- O que será que tem lá, vamos dar uma olhada se...
- Opa, filme inédito! Na verdade, é uma adaptação do “Hair” feita pelo diretor dos filmes do Schwarzenegger.
- Como é que é?
- A crítica está dizendo que ele conseguiu deixar aquele musical hippie chatíssimo com uma ação inacreditável. Vamos ver um pedacinho só, vai?
- Hum. Que horror! O cabeludo pegou uma espingarda e deu um tiro na cabeça da garota! Não, não, não! Tira já daí!
- Posso só ver a cena do músico de country rock que é linchado pelos caras da banda gospel? Tavam dizendo na Ilustrada que é imperdível.
- Não senhor. Me dá esse controle aqui.
- Tá bom, toma.
- ...
- Mas espera aí, programa de receita não, pelo amor de Deus!
- Só que esse do Toby é diferente de tudo, meu amor. Meio que nem eles fizeram com o Hair, sabe? É um programa de receitas de ação!
- Pára tudo! O que o tal do Toby tá fazendo com essa moto-serra na mão?
- Não te falei que era bacana?
- Pô, o cara foi no pasto e arrancou o pescoço do boi! Putz, animal!
- Ele defende um novo tipo de cozinha onde as preliminares do preparo mudam o sabor das coisas.
- Tô vendo. Louco isso, olha lá! O cordeiro sendo metralhado, hahahaha, o Toby detonou o carneirinho! Cara, surreal!
- Muito dez. Ele ganhou o prêmio de melhor programa de culinária da Inglaterra.
- Criativo pra burro.
- Ai, pena que acabou.
- Bota no 101 então.
- O que tem no 101?
- Aquele reality-show novo. Parece que entrou no ar hoje.
- É esse?
- Isso, isso.
- The Giant Dwarfs? Como é que fala?
- Os anões gigantes. Bem diferentão.
- O que eles têm que fazer?
- São duas famílias de naniquinhos. A produção dá um mês pra eles crescerem acima de um metro e setenta.
- E aí?
- Quem chegar na medida primeiro estrela uma mega-produção de cinema com a Pamela Anderson fazendo a Branca de Neve.
- Não gostei não. Vamos trocar de canal?
- Deixa aí um pouco só pra gente ver se algum baixinho se ferra. Deve ser engraçado.
- Não, não. Eu quero ver uma coisa mais light agora. Me perdoa mas vou colocar na minha "TV Senado". Adoro assistir aqueles quebra-paus todos.
- Pô, francamente, briga suja por briga suja eu podia ter continuado vendo a minha luta, né?
- Cala boca que um lobista vai falar! Pega a pipoca, pega a pipoca!

Carlos Castelo

Retirado de: http://blonicas.zip.net



Música Atual : Ah, se eu vou! - Roberta Sá

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Combustível pra cabeça..

A Revista Piauí esse mês está imperdível. Em um de seus artigos a polêmica discussão a cerca da pena de morte. O motivo? A sua extinção no estado de New Jersey, Estados Unidos. Segundo a revista, 64 países no mundo praticam a pena. E para meu espanto, 91% das execuções no mundo ocorrem em países como China, Paquistão, Irã, Iraque, Sudão e Estados Unidos. E nem causa tanto espanto assim a constatação de que a maioria dos condenados nos EUA são os negros e latinos, possíveis imigrantes.
É, intrigante . O nosso exemplo de democracia ocidental mantém em suas punições métodos medievais, além de deixar perceptível o abismo social que divide a sua sociedade . Opa, mas estou falando em um país De - sen - vol - vi - do. A maior potência econômica e militar mundial.
Será que a pena de morte é a saída para o problema da violência? E no Brasil? Você concorda com os princípios da Lei do Talião "Olho por olho, dente por dente" ?
Reflitam por favor..


Música atual: Alzira e a Torre - Lenine

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Começando..

Feliz 2008 a todos!



Para estrear, uma poesia de Carlos Drummond de Andrade. Ele, sempre ele. Adoro! Boa leitura.

Memória

"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão. "

(Carlos Drummond de Andrade)

Música atual : Flores - Titãs e Marisa Monte