domingo, 13 de julho de 2008

Ninguém mais pede em namoro


É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade?

“Qualé a sua, meu rapaz?!”, indaga a nobre gazela.

E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas.

No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos de hoje, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, belo belo que te quero, vida noves fora zero...

Cada vez mais raro o pedido formal de enlace, aquele velho clássico, o cara nervoso, se tremendo como vara verde: “Você me aceita em namoro”?

Talvez nem exista mais.

O amor e as suas mudanças. A maioria dos homens, além de não pedir em namoro, além de não pegar no tranco, ainda corre em desespero diante de uma sugestão ou proposta de casamento feitas pela moça.

O capítulo bom da história é que agora as mulheres também partem para o ataque e, diante de uns temerosos ou acanhados sujeitos, escancaram seus desejos e fazem suas apostas, seus pedidos, põem na mesa os seus desejos e as cartas de intenções.

Era bem bacana esse suspense masculino do “você quer namorar comigo?”

Havia sempre o medo do “fora”. Um sim, mesmo o mais previsível, era uma festa.

“Quer namorar comigo?”

No tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga.

Alguns sinais, porém, continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios.

Mais do que um bouquet de flores, mais do que uma carta ou um email de intenções, mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o batom e a força dos membros inferiores.

“Vamos pegar uma tela, amor?”, como se dizia não muito antigamente.

Eis a senha.

Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro.

O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira.

Nada mais simbólico e romântico.

Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas...

Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra.

Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras.

Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, poeta dos melhores e mais líricos.

Palavras, palavras,palavras...

Silêncio, Silêncio, silêncio...

Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.


Xico Sá (escritor, cronista e comentarista esportivo)



segunda-feira, 7 de julho de 2008

Uma noite de julho

Eram duas horas da madrugada. A noite estava tranqüila. A movimentação de carros praticamente inexistia. Paulo caminhava lentamente. Observava a pracinha que ficava em frente ao seu prédio, lá dois mendigos dormiam incomodados com a iluminação da rua.
Na portaria do condomínio, Miranda, o porteiro, o cumprimentou com um sorriso largo e um boa noite entusiasmado. Para ir até seu apartamento, no sexto andar, Paulo recusou o elevador. Preferiu as escadas, degrau a degrau pensando sobre os últimos acontecimentos. Seu trabalho, sua dissertação de doutorado, seus sonhos, suas perdas. Não tinha filhos. Preferia as noites tranqüilas e os livros. Naquele momento, havia percebido que em seu quarto não existiam porta-retratos, álbuns de família, recados da diarista, ou qualquer coisa que lembrasse o dia anterior, o mês anterior, o ano anterior. O apartamento parecia enorme. Seus olhos corriam pelos cômodos e ele achava cada vez mais inúteis aqueles móveis todos.
Ligou a TV. Mudou várias vezes de canal. Como em todas as madrugadas viu um talk show com perguntas cretinas, filmes picantes, séries americanas. Desligou. Voltou seu olhar para a escrivaninha com seus rabiscos, suas tarefas inacabadas. O mês de julho já está quase no final, pensou. O relógio digital no canto esquerdo da mesinha de cabeceira já mostrava três da madrugada. A tranqüilidade da noite parecia acabar quando um carro dispara um alarme a pouco metros dali. Paulo sentia novamente a necessidade do silêncio.
Sua cama estava arrumada, impecável. Ao deitar, decidiu que o seu amanhã seria diferente.
Amanheceu. Paulo não acordou. O dia continua. Sorrisos do porteiro. Bons dias apressados. Barulho do trânsito. Sol forte. Sirenes de escolas. Beijos de namorados. Elevador subindo e descendo. Televisão com volume alto. Conversas inúteis no bar da esquina. E o condomínio não reparou a ausência de um homem de cinqüenta anos sem amigos, sem família e sem a agenda de compromissos, que ele havia esquecido na portaria, em sua última noite.
Nathália Rebouças