segunda-feira, 7 de julho de 2008

Uma noite de julho

Eram duas horas da madrugada. A noite estava tranqüila. A movimentação de carros praticamente inexistia. Paulo caminhava lentamente. Observava a pracinha que ficava em frente ao seu prédio, lá dois mendigos dormiam incomodados com a iluminação da rua.
Na portaria do condomínio, Miranda, o porteiro, o cumprimentou com um sorriso largo e um boa noite entusiasmado. Para ir até seu apartamento, no sexto andar, Paulo recusou o elevador. Preferiu as escadas, degrau a degrau pensando sobre os últimos acontecimentos. Seu trabalho, sua dissertação de doutorado, seus sonhos, suas perdas. Não tinha filhos. Preferia as noites tranqüilas e os livros. Naquele momento, havia percebido que em seu quarto não existiam porta-retratos, álbuns de família, recados da diarista, ou qualquer coisa que lembrasse o dia anterior, o mês anterior, o ano anterior. O apartamento parecia enorme. Seus olhos corriam pelos cômodos e ele achava cada vez mais inúteis aqueles móveis todos.
Ligou a TV. Mudou várias vezes de canal. Como em todas as madrugadas viu um talk show com perguntas cretinas, filmes picantes, séries americanas. Desligou. Voltou seu olhar para a escrivaninha com seus rabiscos, suas tarefas inacabadas. O mês de julho já está quase no final, pensou. O relógio digital no canto esquerdo da mesinha de cabeceira já mostrava três da madrugada. A tranqüilidade da noite parecia acabar quando um carro dispara um alarme a pouco metros dali. Paulo sentia novamente a necessidade do silêncio.
Sua cama estava arrumada, impecável. Ao deitar, decidiu que o seu amanhã seria diferente.
Amanheceu. Paulo não acordou. O dia continua. Sorrisos do porteiro. Bons dias apressados. Barulho do trânsito. Sol forte. Sirenes de escolas. Beijos de namorados. Elevador subindo e descendo. Televisão com volume alto. Conversas inúteis no bar da esquina. E o condomínio não reparou a ausência de um homem de cinqüenta anos sem amigos, sem família e sem a agenda de compromissos, que ele havia esquecido na portaria, em sua última noite.
Nathália Rebouças

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